Djibuti: Um pedaço de deserto onde toda a gente faz questão de passar

Paisagem árida da costa do Djibuti com o mar Vermelho e navios ao fundo.

O Djibuti é daqueles países que parecem ter sido desenhados por um cartógrafo com sentido de humor. Pequeno, extremamente árido e espremido entre a Etiópia, a Eritreia e a Somália, ocupa uma posição que, à primeira vista, parece pouco convidativa: calor, deserto, vulcões e pouca água.

Mas basta olhar para o mapa com um pouco mais de atenção para perceber o truque. O Djibuti está junto ao estreito de Bab el-Mandeb, a passagem que liga o Mar Vermelho ao golfo de Áden e, por consequência, o Mediterrâneo ao oceano Índico através do canal de Suez. Ou seja, o país pode ser pequeno, seco e pouco generoso em recursos naturais, mas está sentado praticamente em cima de uma das portas de entrada do comércio mundial. Há lugares onde a localização é um detalhe. No Djibuti, a localização é praticamente o currículo inteiro.

Uma Posição Estratégica Disputada por Impérios

Muito antes de aparecerem navios porta-contentores e bases militares, a região já era uma zona de passagem. Povos africanos, comerciantes árabes e comunidades ligadas ao comércio do mar Vermelho circularam por estas terras durante séculos.

A posição entre o interior do Corno de África e as rotas marítimas transformou o território num ponto de ligação entre mundos diferentes. O problema é que os grandes impérios também descobriram rapidamente o valor de uma boa esquina geográfica. Durante o século XIX, franceses e britânicos disputaram influência na região, enquanto a expansão europeia pelo Corno de África redesenhava fronteiras com a habitual delicadeza das potências coloniais: primeiro desenhava-se o mapa e depois alguém tentava explicar aos habitantes porque é que a linha passava exactamente ali.

O Domínio Francês e a Ligação à Etiópia

A França acabou por estabelecer o seu domínio sobre o território, criando o que ficou conhecido como Somalilândia Francesa, posteriormente Território Francês dos Afars e Issas. A cidade do Djibuti ganhou importância como porto e, sobretudo, como ligação ferroviária ao interior da Etiópia.

A construção da ferrovia entre Djibuti e Adis Abeba, iniciada no final do século XIX, transformou o território num corredor comercial fundamental para a Etiópia, país sem acesso directo ao mar. E aqui aparece uma das grandes ironias da história djibutiana: o país não precisava de ter grandes jazidas de petróleo ou enormes campos agrícolas para ganhar importância económica. Bastava estar exactamente no sítio onde os outros precisavam de passar.

Independência e a Construção do Estado

A independência chegou em 1977, quando o território se tornou a República do Djibuti. Hassan Gouled Aptidon tornou-se o primeiro presidente e permaneceu no poder durante décadas.

A população era e continua a ser maioritariamente composta por somalis, sobretudo issas, e afar, dois grandes grupos que também vivem para lá das fronteiras nacionais. Essa diversidade tornou a construção do Estado uma tarefa delicada, sobretudo numa região marcada por conflitos e rivalidades. O Djibuti conseguiu evitar algumas das guerras devastadoras que atingiram países vizinhos, embora tenha enfrentado uma rebelião afar durante os anos 1990. Um acordo de paz em 1994 ajudou a estabilizar o país, que desde então procurou transformar a sua posição geográfica em uma espécie de seguro contra a instabilidade regional.

O País Mais Militarizado da Região

E a estratégia funcionou de uma maneira bastante peculiar: o Djibuti transformou-se num dos países mais militarizados do planeta em proporção ao seu tamanho.

França, Estados Unidos, China, Japão e Itália, entre outros, mantêm ou mantiveram instalações militares no país, atraídos pela proximidade das rotas marítimas do mar Vermelho, do golfo de Áden e do Corno de África. A presença estrangeira representa receitas, empregos e importância estratégica para um país pequeno, mas também significa viver num bairro geopolítico onde praticamente todos os vizinhos têm alguma razão para estar atentos. O Djibuti descobriu assim uma actividade económica pouco convencional: alugar espaço para as grandes potências estacionarem tropas.

O Hub Logístico do Corno de África

O porto tornou-se ainda mais importante depois das transformações do comércio regional e, sobretudo, devido à dependência etíope do acesso marítimo. A Etiópia, uma das maiores economias da África Oriental, utiliza o corredor djibutiano para uma enorme parte do seu comércio externo.

Foram construídos novos terminais, zonas francas e infra-estruturas logísticas, enquanto o país procura afirmar-se como plataforma comercial entre África, Médio Oriente e Ásia. O pequeno território tornou-se, portanto, uma espécie de parque de estacionamento internacional para mercadorias, soldados, petroleiros e interesses estratégicos. Tudo isto num país cuja superfície é inferior à de algumas regiões metropolitanas africanas.

Desafios Económicos e Paisagens Naturais

Mas o Djibuti não vive apenas da geografia. O país enfrenta limitações sérias: escassez extrema de água, clima árido, poucos recursos agrícolas, pobreza significativa e forte dependência de actividades ligadas aos portos e às bases estrangeiras.

A economia pode beneficiar da sua posição estratégica, mas essa mesma posição não resolve automaticamente os problemas sociais. A localização é uma vantagem extraordinária, mas não paga sozinha todas as contas. E há ainda o ambiente: o território inclui paisagens vulcânicas impressionantes, lagos salgados e zonas de deserto onde o calor parece ter decidido trabalhar horas extraordinárias.

No fim, o Djibuti é uma demonstração quase perfeita de que, em geopolítica, tamanho não é sinónimo de importância. Um território minúsculo, com poucas terras férteis e uma das paisagens mais áridas do continente africano, conseguiu tornar-se indispensável para quem quer movimentar mercadorias, projectar poder militar ou simplesmente chegar à Etiópia pelo mar. O Djibuti não tem petróleo em abundância para vender ao mundo, nem vastas florestas, nem grandes planícies agrícolas. Tem uma coisa muito mais rara: está exactamente onde toda a gente quer passar. E, quando se ocupa uma das melhores esquinas do planeta, até o deserto pode transformar-se num excelente negócio.

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